17 dezembro 2008

MIA ou a (rica) prenda antecipada


Mia. Não podia ter sido mais bem escolhido o nome do (quarto) elemento feminino mais recente da família... Pois é, sucumbimos aos desígnios da minha filha, oferecemos-lhe antecipadamente - porque se embrulhássemos não chegaria à consoada - o (suposto) seu único presente de Natal: uma gata e respectivos acessórios...

Como tinha de ser muito felpuda, inquebrável (por causa das “efusivas festinhas” da minha filha), companheira, meiga, asseada e pachorrenta, constatámos que uma persa seria a melhor solução.

Fiz finca-pé até ao fim, explicando ao consórcio feminino que uma gata não é um peluche: come, evacua, pede atenção, adoece, vai ao veterinário, deprime-se, tem “fases”, arranha, enfim... é um ser vivo (mais vivo até do que pensei!!).

Tentei negociar com aqueles peluches altamente sofisticados, alimentados a pilhas, que além de ladrarem e darem ao rabo, ainda fazem chichi; mas sem sucesso. De entre um leque de opções que estiveram em cima da mesa (cães, chinchilas, hamsters, tartarugas, porcos-da-índia ou coelhos anões) e que eu automaticamente excluía, lá me intimaram a escolher o felino doméstico, que, convenhamos, será dos que menos trabalho dá... Era grande a amplitude de resposta: ou “sim” ou “agora”. Claro que emiti um rotundo “não” a todas as hipóteses e claro que a minha opinião foi meramente consultiva pois o “agora” delas prevaleceu...

Confesso que é já a segunda experiência felina cá em casa; a primeira durou três dias ou pouco mais. Era uma rafeirinha beje de nome “Flora” encontrada na rua, já muito débil e, percebemos depois, portadora de doença fatal... foi um choque vê-la definhar e daí esta minha relutância!...

Pois é, mas cá está a Mia... temperamental como só uma mulher, agora mais relaxada e tranquila... Mas na primeira noite, era ver-nos às seis da matina todos a pé, porque Sua Majestade A Princesa ou “estranhou a cama” ou, pior, deliberadamente não nos quis deixar dormir... miando a bom miar, como que a dizer “Sou ou não sou um bom motivo para perderem o sono?”. Daí que eu tenha comentado, sem grande motivo para piadas (previsíveis), que o nome lhe assentara que nem uma luva. Felizmente temos Einsteins cá em casa, e alguém em boa hora se lembrou de deixar Sua Alteza comodamente instalada na cozinha, vedando-lhe (durante o nosso sagrado sono) o acesso aos quartos. Bingo! A Mia parou de miar pela noite dentro... bem, pelo menos eu deixei de a ouvir...

E assim foi nestes primeiros dias: a Mia quer companhia para comer, a Mia mia. A Mia quer vigilância ao seu chichi, a Mia mia. A Mia está sozinha, a Mia mia. A Mia quer atenção, a Mia mia. A Mia não quer nada, e mesmo assim a Mia mia. Ufa! O pior de tudo é que esta gata não foi só uma prenda antecipada para a minha filha, acabou por ser uma prenda para o quarteto de habitantes destes aposentos, nomeadamente para mim, que não estava nada para aí virado. E ainda maior para nós do que para ela, porque foi uma paixão inadvertida, enquanto ela já a amava antes de a ter!

Quanto à marca, trata-se de uma persa vermelha (onde??) tricolor. Para mim é uma garfieldzinha. Cómica até mais não. Tem tanto de pachorrento, como de impulsivo e brincalhão. Também... só tem três meses, não é... mas acima de tudo é ternurenta como só visto!

Ao terceiro dia de Mia-cá-em-casa, temos uma Mia cada vez mais desinibida: a Mia apodera-se gradual e literalmente de toda a casa e de todos os colos (nomeadamente o da “bisavó”, embora não seja esquisita). Devora comida como nenhuma lady que se preze e ainda tem lata de devorar corações, pois estamos todos rendidos ao seu doce ronronar que gradualmente se impõe ao miar hiper-mimado! Notícias frescas: foi ao Veterinário e... é saudável, é só mesmo desparasitar e está aí para as curvas.

Posto isto, e antes que a quadra me escape, desejo-vos um Bom Natal, cheio do “essencial” para serem felizes... E “essencial” pode bem ser um nome para um animal, basta querermos... Façam o que eu não fiz: não comprem, adoptem. Tudo de bom.

05 novembro 2008

Missão cumprida... e a luta continua!



E pronto, já está! Entre deslizes e gaguejos, dei o primeiro passo na divulgação radiofónica do meu álbum! Mais uma vez, um grande obrigado ao jornalista Francisco Gomes, pela oportunidade, pela forma gentil como conduziu a minha entrevista e, sobretudo, por me ter feito “sentir em casa”. Em tempos (longínquos) fiz rádio, mas é sempre diferente estar deste lado...
Houve coisas que gostaria de ter referido, ou dito de outro modo, mas ficarão para uma próxima... É que isto, afinal, não dói nada e até achei que o tempo de entrevista passou depressa demais, apesar de só terem rodado três canções! Ficava ali na cavaqueira, pelo menos mais uma hora. No final, ainda tive direito a sessão fotográfica e tudo!... Isto para além do registo áudio da entrevista que, prontamente, me foi passado para a pendrive, o qual partilho agora convosco, em especial com aqueles que não puderam assistir em directo.
Afinal, e como alguém comentou na anterior postagem, não passou de uma “amena conversa de café”, e por isso, esteve muito longe de ser a tal “matança radiofónica” que eu previa! Se puderem, vejam ou revejam; em bom português, oiçam ou reoiçam esta preciosidade (até ao fim, pois no fecho da peça têm uma surpresinha!)
Um obrigado sincero pelo V/interesse e apoio!
Obs: tive de reduzir qualidade do áudio, para facilitar publicação...

29 outubro 2008

A minha primeira grande entrevista… via rádio!

Imagem: "Nunca desista", in SoRisoMail.com, d.r.
Ai, ai, é tão melhor escrever!.... Pelo menos é tão mais fácil! Se não sai nada, não se escreve… Poder emendar o que se escreveu errado sem ninguém perceber que se o fez…
Então não é que me convidaram para uma entrevista em directo e com a duração de uma hora (uma eternidade, em rádio!!), para apresentar o meu projecto? Nunca soube roer unhas, senão já estavam pelo sabugo!...
Pois é, tenho de me mentalizar, já que é em prol de uma boa causa – a minha – e por se tratar de um desafio inerente ao admirável mundo do “show business”.
A rádio é a 94.8 FM, a emitir das Caldas da Rainha para a Região Oeste e Leiria, salvo erro, à qual eu, desde já, agradeço a amabilidade do convite, na pessoa do jornalista Francisco Gomes.
Terei muito para dizer sobre percurso, objectivos, constrangimentos, etc., mas a questão é encontrar as palavras certas para me fazer entender… oralmente e para uma audiência (detesto falar em público)!
O que me cria ansiedade é a sensação de “trapézio sem rede”, a que me causa um directo, para além do factor “duração”, pois uma hora em rádio é infinitamente grande!!! E, a ajudar, o factor “sozinho em estúdio”, pois com banda já cheguei a estar em directo, nem sei quanto tempo… mas aí tínhamo-nos uns aos outros para tapar brancas ou emendar fífias!...
Enfim, não há-de ser nada, o melhor mesmo é ir-me habituando, pois nunca se sabe que convite poderá vir a seguir…
Para quem quiser ouvir as minhas (sérias) baboseiras, desta feita, radiodifundidas, é só sintonizarem a 94.8 FM no rádio ou então oiçam via Web, em http://www.94-8fmradio.com/, na próxima segunda-feira, dia 3 de Novembro, a partir das 19h00, e assistam à maior matança ao vivo da história radiofónica!....
O álbum (que levarei comigo) tem cerca de 45 minutos de música… talvez sugira que o rodem na íntegra, na esperança de que os 15 minutos de sobra fiquem para compromissos publicitários e para eu dizer “Olá boa noite” e “Adeus, até uma dia destes”…

19 agosto 2008

Post(al) de Férias: um lugar quase perfeito!

Creio possuirmos, todos, uma vocação inata para a evasão, como seres naturalmente livres que somos. Sabem, aquela vontade de querer largar tudo e permanecer para sempre em dado local? Uma vez mais experimentei essa sensação, e não precisei ir muito longe; não saí (praticamente) do país. Eis-me regressado de oito fugazes dias de um merecido descanso no Alto Minho – uma das mais belas paragens lusitanas...
À luz dos meus ainda parcos conhecimentos geográficos, Portugal começou no norte e bem que podia ali ter terminado! O cheiro a história a brotar de cada recanto de edifício, o imenso verde a revigorar-nos a alma… do genuíno sotaque das gentes à preserverança das tradições, está tudo ainda tão vivo, tão defendido, que iliba até a excessiva frescura das águas das suas praias!...
Foi, também, o relembrar de locais que marcaram a minha meninice: a piscina natural de água de Afife (que soube afinal apelidar-se de Fátria), onde me voltei a banhar… desta vez com a minha filha, com a idade que eu tinha na altura em que ali me enxaguava, após os salgados banhos nas praias vizinhas… E o recordar das infindáveis latadas a convidarem-nos a merendar à sua sombra ou a percorrer os estreitos caminhos ladeados por muros empedrados…
Alojei-me numa bonita casa rústica, suponho que em xisto e granito, aos pés da interminável Serra d’Arga, na tranquila aldeia de Argela, a escassos quilómetros de Caminha, e a outros tantos da pequena grande aldeia de Vilar de Mouros – autêntico berço dos festivais de Verão…
Tendo Caminha como porto seguro durante a minha breve estadia, trouxe na bagagem o relaxe da sua praça principal e a delícia dos seus “sidónios”… bela vila plantada à beira do estuário do Rio Minho, a piscar o olho a La Guardia e ao místico Monte de Santa Tecla… como compreendo nuestros hermanos, que enchem as fronteiriças vilas minhotas… e não é por certo para comprar tabaco ou atestar o depósito!... E o que não dizer do cheiro a arte que emana das ruas e praças de Vila Nova de Cerveira? Onde não resisti, na última noite, a presenciar - por cinco euros! - o brilharete de Jorge Palma, a solo no auditório municipal, bastando-lhe apenas uma viola, um piano e um promissor filho (Vicente Palma) a apoiá-lo de quando em vez… e, claro está, uma voz de excelência e magnetizantes arranjos de piano… um senhor sem medo do palco, mesmo trapeziando sem rede, confiante numa plateia que ignoraria um “Barco do Amor” de corda partida, um discurso “ao vivo” com pouco substrato, saciada que estava pela riqueza semântica das suas letras e pela sua peculiaridade musical…
Com Viana do Castelo presa no goto, virei, uma vez mais e a contra-gosto, costas ao Minho… até um dia destes!
Não fosse um “casal muito próximo” ser assaltado em pleno Pincho (piscina natural e cascata algures no Concelho de Caminha), e o mundo pareceria perfeito!...
O.V.D.V.

18 junho 2008

A regra O.V.D.V.: Ouvir, Votar, Divulgar e Voltar!

É verdade. A sensação que dará aos antigos hóspedes deste meu cismário é que resolvi testar a minha popularidade, de modo, quiçá, a ensaiar uma possível candidatura ao próximo acto eleitoral. Mas não, não é coisa que me ocupe o espírito, pelo menos na actual encarnação… Faz parte da fase em que me encontro, musicalmente falando - tentar perceber a aceitação/receptividade do meu trabalho (o da K7 acima, do qual vos falei no anterior post). Para tal, e sem quaisquer pretensões de vencer concursos, “alistei-me” nalguns espaços virtuais que me darão a visibilidade necessária para o efeito, e cujos links estão na barra lateral deste blogue.
Aos fiéis e pacientes seguidores das minhas cismas, prometo retomar logo que oportuno. Mas não deixarei, doravante, de “interromper” para dar conta das minhas investidas musicais…
Posto isto, digo-vos que estou a votos no Rock Rendez Worten (até 15 de Setembro), e no Super Blog Awards (de 1 de Julho a 31 de Agosto). Além disso, arranjei uma residência secundária no Myspace. E, como convém, sou um fiel membro da SPA – Sociedade Portuguesa de Autores. Por agora, é só...
Resumindo e baralhando: continuem/passem a votar nos vossos temas favoritos, na sondagem lateral deste blogue – condição essencial! Mas passem também pelos links de que vos falo, sobretudo os 3 primeiros, ja que o outro é só para constar.
E vo(l)tem sempre!
O.V.D.V.

24 maio 2008

12 temas, 12 anos: sigo… para bingo!

Imagem: Gil Garcia, d.r.
E pronto, confesso, é sobretudo a música que me faz perder na cisma… digo-o a quem não sabia e a quem já o não tinha presente…
Deu trabalho, mas ontem de madrugada, após várias tentativas, lá consegui colocar neste blogue os 12 temas que constituem o meu primeiro álbum. Isto enquanto não surge um site oficial e um incontornável myspace
Numa abordagem directa, melodiosa e actual q.b., (re)atrevi-me a assumir as rédeas da interpretação e da composição, desta feita a solo, com o muito pouco que sabia, e olha, resultou em algo mais introspectivo e menos orgânico do que inicialmente pensei. Todavia, gostei do resultado final, espero que também apreciem!...
Trata-se de um trabalho "de autor", carecendo ainda do polimento final de uma masterização, mas que ilustra bem o meu percurso e envolvimento de cerca de 12 anos (1993-2005) com a música, a que se seguiram perto de 3 anos de retempero, redefinição, composição e produção, pausa que serviu para concluir que tudo o que fiz musicalmente fez sentido em cada altura, e que estilisticamente sou uma miscelânea de tudo o que fiz.
Não foi por acaso que quis preservar algumas letras, estrategicamente esquecidas “no fundo do baú”, algumas delas experimentadas (total ou parcialmente) em projectos musicais a que me orgulharei sempre de ter pertencido, até porque me ajudaram a acreditar que, apesar de difícil, era um caminho exequível!... Obrigado a todos os que, ao longo dos anos, partilharam este sonho comigo; perdoem-me a frase feita, mas seguramente que existe um pouco de cada um de vós neste trabalho!... Obrigado à I. Martins pela magnífica “Centelhas do Querer”, única letra, aliás, que não é de minha autoria e que recuperei, com nova roupagem – espero sinceramente que tenhas gostado do novo arranjo!
Obrigado ao R. Neves, pelo feliz trabalho de arranjo e de produção, apesar da sua pouca disponibilidade temporal… e da minha pouca disponibilidade financeira!
“Sigo em anexo” foi o título que escolhi para simbolizar a entrega (espiritual) da minha vida à música…
Gostava, nesta fase pré-promocional, de eleger até três temas a destacar do álbum e conto convosco para esse fim! Basta que assinalem o(s) que mais vos “toca(m)”, na sondagem da barra lateral.
Claro que aceito comentários, opiniões, sugestões, o que até agradeço! Os temas estão em formato MP3 – média qualidade, compactação necessária para poderem aqui figurar.
Para já, nada de cd, por isso, aproveitem e rodem bem o espectacular player que descobri, a pensar em vocês… e tenham uma boa estadia nesta vossa “modesta pousada” cujo endereço mudou, por motivos naturais...

02 abril 2008

Juventude (à) rasca

Imagem: "Estados de alma", Mark Freedom, d.r.
Quando começamos a perceber que duas em cada três pessoas que nos rodeiam no dia-a-dia são mais novas do que nós, há duas coisas que não estão bem: uma é o facto de estarmos a ficar galopantemente mais velhos (contribuindo assim para a triste estatística europeia!), a outra é o facto de começarmos com as célebres paranóias da idade.
É um dado consumado: estou a chegar ao limite etário convencionado para a juventude, momento a partir do qual, além de experimentarmos o “apelo da paternidade”, nos começamos a sentir desconfortáveis em determinados locais e ridículos perante certas figuras; em que um “mero factor preferencial” se começa a sobrepor a pargas de certificados no acesso a um emprego, para não falar em descontos ou programas de financiamento que nos passam a estar vedados; altura em que nos começam a tratar por “você”, “senhor” ou até mesmo “doutor”, e em que o nosso organismo e o espelho já começam a evidenciar alterações que não merecem (ainda) ser aqui afloradas…
Este estádio de “jovem cessante” ou de “pré-adulto” traz-nos uma espécie de segunda confusão existencial: avançamos, de cabeça, rumo à fase adulta, de olhos cerrados para não sentir o impacto, ou resistimos, qual “jovem” do Restelo, usando todos os trunfos e argumentos para poder continuar do lado “fresco” da vida?
Pois é, soube que dia 28 de Março foi Dia Nacional da Juventude e lembrei-me de mim... E elenquei mentalmente tudo o que ainda quero fazer neste final-de-etapa de vida. Elenquei, de seguida, o fardo crescente de responsabilidades que me trouxe a fase final deste estádio oficialmente designado por juventude… Percebo, depois, que por muito que física e gradualmente o espelho não deixe margem para dúvidas, resolvi não fechar os olhos, e avançar serenamente, sem medos, rumo à fase “grisalha” da vida; aquela em que deixamos de ser “pá” ou “meu” para entrar irreversivelmente na fase sénior do “olá como está”; em que os feios passam a charmosos e os bonitos se tornam simpáticos… mas decidi, porém, levar comigo tudo o que aprendi e conquistei na juventude: a capacidade de sonhar, a lealdade, a diversão, a liberdade, até mesmo a responsabilidade … e a inocência, quanto baste… Quanto ao espelho, tenho três opções: pisco-lhe conformadamente o olho, parto-o de vez ou rendo-me a uma Dermoestética… no fim de contas, a aparência é a única coisa que temos capacidade de mudar…

19 janeiro 2008

Afinal, valeram-nos as passas?

Imagem: seton-pt.com, d.r.
Hoje, 19 dias depois de iniciado o ano da graça de 2008, data em que celebro três anos de muito intermitentes investidas a este meu cismário digital, o que nos dizem, sobre Portugal, as manchetes dos cinco títulos de imprensa actualmente líderes de audiências? Comecemos pelo número um do ranking – o Jornal de Notícias: «Carolina acusada de furtar objectos no valor de 280 mil euros.» Nada de novo quanto a esta longa novela (carago!). P. da Costa a continuar a somar pontos, dentro e fora das linhas de campo; passemos já para o Correio da Manhã: «Bebé morre à porta de urgência fechada, dias depois de o ministro da saúde ter encerrado o serviço do hospital da Anadia». Nada de novo, a saga do encerramento de serviços de atendimento permanente, pelo país fora, prossegue. Desta vez, o timming escolhido para o fecho jogou a desfavor de quem manda, que continua a dar passos certos e seguros… rumo ao precipício. Com perdão para os "colegas de profissão" (ainda que a culpa não seja deles!), também nada de novo por aqui; avancemos para o Público: «Bancos sobem spreads e travam concessão de empréstimos». Nada de novo, tendo em conta a conjuntura. Terminado o ano com uma das maiores desacelerações económicas dos últimos anos, não admira que cada um se safe como pode, e o povinho vai de apertar o cinto mais uma casa, adiando a compra da respectiva. O senhor que se segue, o 24 Horas: «Cães já sabem que Mari Luz foi metida num carro»; nada de novo. Mais um desaparecimento, mais uma menina alegadamente metida dentro de um carro, mais um casal de pais desesperados, embora, desta feita, na vizinha Espanha (Boa Sorte para esta busca também!). Para terminar, o Diário de Notícias destaca: «Casinos vão estar na reunião que decidirá a lei do tabaco.» Por amor de Deus. Esta também não era uma novidade para ninguém. Todos sabíamos que a medida ia avançar (ainda que em moldes pouco claros), embora, como bons portugueses, e bons fumadores que sempre fomos, deixámos para dia 1 de Janeiro mais esta preocupação. Houve inclusive quem nem sequer a 1 de Janeiro estivesse preocupado, ao alegadamente ter fumado, muito oportunamente, uma célebre cigarrilha (era a última, caraças!).
O que há, de facto, de novo quanto a este tema, embora fosse previsível, é a proliferação de beatas à entrada de tudo o que são edifícios e estabelecimentos. O que trará isto de novo? De positivo, sobrará para as empresas de mobiliário urbano, com a corrida aos cinzeiros de exterior e abrigos para fumadores - que, naturalmente, (n)os protegerão do frio, da chuva do sol e, quiçá, dos apedrejamentos -, tal como para as de comércio de sinaléctica "fumadores/não fumadores". De negativo, sobrará, certamente, para os almeidas das autarquias (não falando no ambiente), que, espero, se valham disso para clamarem a sua justa recompensa. E a nós, terá valido a pena o sacrifício de engolir as 12 passas do recente reveillon? Esperemos que sim, que tenha mesmo valido. Que 2008 venha a ser uma revelação - pela positiva - para governo, povinho, e especialmente para vós e para mim! Bem precisamos! Bom ano a todos!...
Obs.: Ah, e deixem um coment de parabéns! Aqui os fumadores têm abrigo certo e seguro!…

06 dezembro 2007

Abençoado consumismo! (Qu’ é das Bom-Bokas?)

Imagem: misteriojuvenil.com, d.r.
Adorava conseguir passar a quadra sem falar em Natal. Por uma questão de originalida-de, nada mais…
Chega o Natal e ando sempre numa azáfama tal, que, sinceramente, não o sinto chegar. Quando dou por ele, já se instalaram as luzinhas por toda a parte e já fui alvo de um bombardeamento atroz à caixa de e-mail com votos de boas festas a que raramente consigo dar resposta…
Não vou opinar contra o consumismo, pois já tudo foi dito e escrito sobre esta questão. Antes vou exortá-lo. Sim, que outra melhor época haverá para celebrarmos o consumismo, para exorcizar a alegada fraca auto-estima dos portugueses? Porque não gastar saudavelmente os míseros euros que esforçadamente ganhamos com banalidades natalícias? Quem tiver crianças, sabe que não são assim tão banais as prendas de Natal... a julgar pelas listas (mentais) de presentes datadas de 26 de Dezembro do ano transacto…
E depois? Antes gastar com isso!... Pode ser indício de que, pelo menos no essencial, estamos supridos (friso: pode ser).
Venha a igreja, e seus fiéis, apregoar que o Natal é tempo de reunir a família, tempo de amar, de compreender e perdoar, e eu digo “ámen”… então, não é mesmo para isso que compramos prendas? Para reunir a família? Para amar quem acerta no que queremos e precisamos, para compreender quem não pode dar melhor ou para perdoar quem se esqueceu de nós nesse ano? Não me importo que o Natal dos últimos dois séculos possa ser sinónimo de consumismo desmedido, não me importa mesmo nada! E sou crente! O importante, de facto, é “manter a lareira acesa”; o importante é reunir motivos para que ainda se justifique estarmos, uma vez por ano, todos juntos, nem que seja motivados pela troca das prendas e pelos calóricos comes-e-bebes. Importa-me, isso sim, não ter tempo seja para gerir bem o capital (?) destinado às lembranças que tenciono comprar – o que poderá “encarecer” a minha reunião familiar –, seja para comprá-las, o que ficará, invariavelmente, para vésperas do nascimento do menino!...
Sem mais por agora, me remeto ao silêncio, desejando, a todos, um Feliz Natal, repleto de idas ao shopping!...
Quanto àqueles, os que não têm forma de reunir a família, e os outros, os que não têm família para reunir, só posso desejar melhores Natais no futuro…
Obs: E por falar em consumismo, o Natal lembra-me, invariavelmente, as saudosas Bom-Bokas dos anos 80… Oh gente da minha geração, que é feito delas? Será que o Pai Natal do anúncio efectivamente comeu as últimas?!?

06 novembro 2007

Vida de abertura (demasiado) fácil

Imagem: "M. em conserva", Rui Matos (adaptada)
Ando um bocado farto de registos de utilizador e de códigos de acesso, de senhas electrónicas e de palavras-passe; do coleccionismo de cartões magnéticos e de comandos à distância, e de todo o tipo de automatismos de abertura….
Desde a picagem do ponto, à chegada ao trabalho, até à abertura “digital” da porta de entrada, no regresso a casa: um quotidiano de abertura demasiado fácil…
A pouco e pouco, tudo na vida vai sucumbindo à devastação dessas predadoras combinações alfanuméricas, e ficando dependente de um e-mail confirmativo de registo. Literalmente, uma liberdade condicional, esta que estamos a construir…
Quase sem darmos conta, o nosso leque privado de “amigos de café” transforma-se numa infinidade de “comunidades” virtuais de amigos de todo o mundo; positivo, não fossem virtuais… Antigamente, para fazer uma amizade, tínhamos antes de conhecer a pessoa, conviver com ela, perceber se podíamos confiar e, por fim, confiar. Era a ela que fazíamos gosto de mostrar, em primeira mão, as fotos das últimas férias, e só a ela contávamos os segredos mais recônditos, e, ainda assim, muitas vezes ajudados e alentados por uma qualquer bebida desinibidora… hoje em dia, podemos expor, virtualmente ao mundo inteiro, as nossas férias no momento em que estão a acontecer. E o que relatamos “instantaneamente” ou publicamos via web, muitas vezes, nem sequer ao melhor amigo(a) contamos pessoalmente!
Caminhamos, pois, para um novo conceito de amizades: platónicas, intermitentes, fugazes e interesseiras… que se interrompem com o esquecimento das passwords, com a “queda” da net ou avaria do pc; que se perdem se a moderação do chat ou fórum nos bane por incumprimento das regras… ao contrário de um verdadeiro amigo, que sabe sempre perdoar!
O reconhecimento tende a medir-se, pois, não tanto pelo carácter, simpatia e demais atributos de uma pessoa, mas sobretudo pela quantidade de amigos (insisto, virtuais) adicionados.
Os fóruns e os chats temáticos (e, porque não, os blogues!) são, com efeito, uma boa invenção. Mas valem o que valem e devem valer só isso. Quanto a mim, o abissal fosso que o internauta cava em redor de si próprio aumenta à medida que adiciona um novo amigo (ou é adicionado) ou que se regista numa nova sala de chat, num novo fórum de discussão, que publica um novo post; isto (sublinho), caso não haja tempo para fazer e manter as amizades genuínas, de carne e osso, as que se celebram na escola, no trabalho, no bairro ou na terriola onde se vive, ou, porque não (sou levado a admitir), a partir de um primeiro contacto (seguro?) na net... Aquelas cuja “chave de acesso” não expira, por ser intemporal, inata e universal: um abraço, uns beijinhos, um aperto de mão e a troca de um olhar, aquele olhar…
E o que não dizer das saudosas filas de espera (que agora são virtuais!) nas congestionadas repartições de finanças, em (final de) época de entrega do IRS, onde aproveitávamos para coscuvilhar um pouco, reclamar com o vagaroso atendimento, ou trocar lamentações a propósito da sobrecarga de impostos e dos efeitos reais da subida da inflação, designadamente, no respeitante «ao preço a que os legumes estão!» e lamúrias que tais…
À custa de “terabytes” de passwords e e-mails, somos aquele(a) e aquilo que quisermos ser. A Internet constitui a bendita chave-mestra que nos abre as portas a um infinito manancial de possibilidades, ao serviço da nossa vida real. É pacífico. O inverso já não me parece normal nem sensato, antes perigoso, danoso para a integridade humana…
Irremediavelmente, e para meu aborrecimento, esta galopante “doença” vai-se alastrando e o mundo vai-se abrindo, a cada momento, um pouco mais…
Poupem-nos, ao menos, a leve agonia da abertura dos enlatados (tarefa que, mesmo assim, foi em tempos mais árdua)… dá mais luta a quem os come! Quanto ao resto... “abre-te sésamo!”

19 setembro 2007

O que é nacional é bom (q.b.) …

Imagem: "O outro lado da ferida", Paulo Madeira
A vantagem, para mim, de falar de qualquer assunto específico reside no facto de eu não me considerar especialista (ainda que possa ser) de coisa alguma, logo, o grau de exigência que me é pedido é o de um cidadão comum, de Q.I. médio, como creio ser, digo eu…
Assim, a pena máxima que poderei apanhar será um puxão de orelhas com as devidas atenuantes. Tentarei, porém, escrever com responsabilidade… cívica.
Não sei o que me deu; também é certo que mais de três meses sem postar dá nisto!
Eis que me surge, vinda do nada, uma repentina vontade, quase diarreica, de postar sobre Escrita de Televisão. Podia ser por mera dor de cotovelo (já que é uma arte que deixarei para a próxima reencarnação), podia ser por não ter nada sobre que escrever, ou por simples pena da televisão que hoje temos, e sobretudo de nós, “dormitadores” de sofá. Vou optar pela última hipótese, que é a que melhor se coaduna com o que falarei a seguir... Já cheguei a falar de Informação, não foi? Ora agora vou falar de Entretenimento… à laia de Chico-Esperto…
Ora vejamos. Temos ou não temos melhores actores de ficção nacional que no passado? Temos ou não temos comprovadamente boas equipas de produção e de realização? Temos ou não temos novelas portuguesas permanentemente em horário nobre, ou seja, alcançando e mantendo bons níveis de audiência? Já lá vai o tempo em que representar em televisão se dizia ser demasiado teatral/pouco realista. Então não haveria de ser, pois se o teatro em Portugal tem, pelo menos, 5 séculos de existência, contra os 50 anos de televisão, dos quais apenas 25 de novelas em português (e com períodos de interregno)! Hoje, vemos, satisfeitos, boa parte dos actores portugueses com um realismo de representação que iguala, quando não suplanta, a melhor produção estrangeira. E com contratos de trabalho! Bem, sobretudo, com trabalho… esta é a parte boa (para eles) da questão.
A parte mais aborrecida (para nós): em Portugal mantém-se ainda o culto do não inédito, das adaptações de formatos comprados lá fora, sabe-se lá a que preço, guiões do tipo pronto-a-ver-
-sempre, quando cá dentro se verifica uma vaga, melhor, uma avalanche, dos melhores argumentistas, guionistas, criativos, que alguma vez tivemos!!! E para onde continuam a olhar os nossos directores de programas? Ainda para a galinha da vizinha, ora essa! Suponho que a seguir religiosamente dados de audiometria e a copiar milimetricamente formatos pagos a ouro! E porquê? Para não correr riscos… e os que arriscam escrever/suportar uma história de ficção original, (uma prática, é certo, cada vez mais corrente) a colarem-se aos lugares-comuns importados, sempre no intuito de liderar audiências… em termos práticos, vai tudo dar ao mesmo.
É triste, pois quando pensamos que é desta que é tudo 100 por cento nacional, vai-se a ver e… não é assim tanto! A praga primeiro tomou os concursos de assalto, depois seguiram-se os reality-shows e por fim as novelas. Bem, na verdade já não sei bem qual terá sido “tomado” primeiro…
Infelizmente, partilhamos ainda da cultura d'o que é nacional é bom, sim, mas para as elites. Mas já não nos podemos queixar de produções maioritariamente herméticas, eruditas e rebuscadas. Já se chamam nomes, já se chora baba-e-ranho, já se dão empurrões, já se parte loiça, já se explodem carros, já se dizem palavrões, já se colam corpos sem lençóis de entremeio e já se dão beijos de língua… tudo a fingir, em nome da profissão!
Mas enquanto, recorrentemente, se cegar a irmã gémea boa; enquanto a menina pobre sonhar perpetuamente em ser rica ou famosa; enquanto repetidamente se descobrir que, afinal, o filho não é do marido pobre mas antes do amante rico e enquanto durarem as madrastas más a infernizarem a vida às enteadas boas que afinal tinham cancro, e os maus morrerem no fim ou ficarem loucos e os bons casarem e tiverem casais de filhos; enquanto se insistir nas dicotomias fáceis, pueris e castradoras da nossa capacidade intelectual… enquanto isso acontecer (se não sempre), mais vale ler um livro!
Não sou nacionalista, nem pouco mais ou menos, logo eu, verdadeira encruzilhada de origens! Aliás, adoro uma boa série ou filme made lá fora, legendadinhos, como convém! … Agora, ou é ou não é! Acredito que é possível inventar, criar algo genuinamente nosso e colocá-lo em horário nobre... sem receios! Cooperar em vez de competir… estão a ver? Quem não acreditar, que atire a primeira pedra….

08 junho 2007

A diferença entre comprar e estar… presente



Não fui uma criança de muitos brinquedos, mas fui compensado com mimo, muito mimo mesmo, e de uma intensidade equivalente à vontade de comprar o mundo inteiro para me oferecer…
Nasci em ‘74, e a minha infância sucedeu sob os efeitos do pós-25 Abril, do retorno de África da minha família nuclear, da sua adaptação a um novo sistema, a uma nova vida e a uma nova cidade (Lisboa, onde acabei por nascer) e, logo a seguir, o seu regresso a uma aldeia onde pouco havia… a que se veio juntar os desentendimentos e o (in)evitável divórcio dos meus pais, a consequente(minha) separação da minhã irmã, o meu atropelamento, a prolongada doença do meu avô (verdadeiro pilar da família; verdadeiro pai, para mim), o seu inesperado falecimento e a subsequente viuvez da minha avó (verdadeira mãe, para mim). Tudo isto até aos quatro anos – sensivelmente a idade que a minha filha tem, na actualidade.
Talvez devido a ter crescido em tempo de vacas magras (no que toca a brinquedos e afins), mas, sobretudo, devido ao brusco aumento do actual custo de vida, não sou pai de comprar tudo à minha filha. Mas é uma situação que, ao contrário do que seria de esperar, não me incomoda, pois ela não é, felizmente, criança de pedir tudo o que vê. Para ela, a palavra “presente” parece significar mais do que o último grito dos brinquedos. Obviamente que gosta do Noddy, do Winnie the Pooh ou da Pequena Sereia. Mas, para ela, nada disso é imprescindível; apenas lúdico. O facto de a amiga ou o amigo terem algo, por si só, não a motiva o suficiente para ter igual…
Para ela, “presente” significa mais do que isso: significa pai ou mãe (preferencialmente os dois ao mesmo tempo) estar lá, junto dela, a apoiar as pinturas no livro de colorir, a supervisionar as actividades dos manuais didácticos, a jogar aos pares com as cartas, a fiscalizar a construção do castelo de legos, a vigiar a montagem do puzzle, a decorar a sala com as suas fabulosas aguarelas, a ler uma história «pequenina, papá!»… e outra… e mais outra… a afagar, enfim, docemente, o seu cabelinho macio, ou a massajar suavemente a sua tez de veludo, «mas sem cócegas, papá!», para que consiga relaxar e adormecer. Ou, então, a fazer-lhe consentidas cócegas ou a içá-la com um desajeitado elevador feito de pernas; a fazer por ir buscá-la mais cedo à creche, mas para estar, de facto, com ela; parar para ouvir, com atenção e respeito, as “graves” pequenas coisas que lhe aconteceram, e que, afinal, constituem a maior parte do seu dia-a-dia; e não subjugá-la ao quarto e ao tão útil leitor de DVD ou Canal Panda. É este o significado de “presente” para a minha filha e, se calhar, para tantas outras crianças, em tantas outras famílias. Arriscaria mesmo dizer para todas as crianças do mundo!
Se não posso comprar, não compro. Ela também não insiste muito. Se não posso brincar, chateia-se, chateia-me, chateia-nos, aborrece-se, fica com mau feitio. E não é chantagem, nem sobredosagem de mimo, mas antes frustração e sensação de injustiça; pensará «afinal, o que sou eu? Um bibelot, para não dizer um troféu, para exibires aos teus amigos, familiares ou conhecidos?… que transportas da escola para o quarto, e do quarto para a banheira, e da banheira para a mesa, e da mesa para o quarto, e do quarto para a escola?…»
Enfim, é bem melhor não comprar presentes, mas antes estarmos… presentes. (Como dizia há poucos meses, na SIC, o psicólogo Eduardo Sá, os pais «darem-se, em vez de dar», nem que seja só por uns minutos, todos os dias.) É isso que sinto em momentos tal como o de anteontem, quando a minha filha, enquanto brincávamos, me surpreende com uma carícia na face, com tanto de inesperada quanto de meiga, o que me faz, a seguir, perguntar, com um sorrir desajeitado: «o que foi, filha?». «Nada, papá», responde ela, devolvendo-me um ternurento sorriso: «é que apeteceu-me fazer-te uma festinha!»

14 maio 2007

Por muito que isso nos choque...

Imagem: "Mundo paralelo...", Jorge Guedes
São 80, contei eu, os desapa-
recidos em Portugal, de acordo com o site da Polícia Judiciária (http://www.pj.pt/htm/pessoas.htm). Uns naturalmente mais mediáticos do que outros, dependendo da idade e do estrato social. Mas todos, pelos mais diversos motivos, se ausentaram, voluntariamente ou não, do lar, dos entes queridos, de um passado que foi a única coisa que restou daquela identidade, daquela vida… eternizada num ficheiro policial, reduzida a uma única foto, que faz de cada um, senão mais amado, pelo menos mais conhecido…
Poderemos especular e conjecturar sobre os motivos, que serão vários, sendo os mais vulgares: desespero, demência, rapto… enfim, uma história e um sofrimento inacabados para quem fica, um final (quiçá inesperado) ou um recomeço do zero, para quem vai…
Tenho para mim, e a realidade tem-no demonstrado, que mais fácil é resgatar um desaparecido morto, do que vivo. O ciclo de uma nova vida começa no exacto momento em que se dá, convictamente ou não, a ruptura com um presente, com uma identidade… que acaba, a partir desse momento. Ainda que regresso haja. Nada volta a ser exactamente como antes.
Para quem fica, podemos imaginar o espaço vazio à mesa, a cama feita para sempre e os peluches imóveis por décadas a fio… podemos tentar supor o medo exacerbado e a dependência das memórias, que queremos simultaneamente guardar e expulsar da nossa mente; dos flashes de sorrisos e de olhares a assombrarem-nos o espírito, e a perseguição do que não se disse, ou do que se devia ter evitado dizer; o último abraço, as últimas carícias, a última frase… podemos arriscar até dizer que (para quem sofre com ela), será um mal menor a irremediável perda, comparada com esta infindável angústia…
Podemos até tentar imaginar o desamparo, o horror, a saudade atroz e a solidão abissal de quem foi… Mas, sobretudo, a sua revolta em relação aos que ficam. A revolta por não terem sabido contrariar a sua saída e por não terem sido capazes de o (a) encontrar; e o início da resignação a um novo ciclo que começou; a uma identidade nova que teima em ser sua… e, quando é o caso, a auto-culpabilização por punir tanto quem sabe que espera por si…
De quem fica, a esperança em cada tocar de campainha, a ânsia em cada chamada de telefone, a expectativa a cada carta do correio, a desconfiança perante cada vulto que se aproxima; e o desconforto de cada olhar (ora de pena, ora de suspeição) da vizinhança ou de um transeunte qualquer…
Obviamente, não conseguindo mais do que isso, fiquemos apenas pela tentativa… e pelo desejo de que esse outro ciclo possa, sendo possível, ser (ou ter sido) melhor para todos, incluindo para os que ficam… onde quer que ele se passe… por muito que isso nos choque…
Para nós, fica o exemplo de cada rosto daquela montra de desaparecidos, para que nos acautelemos o mais possível, face a um mundo tão estranho e imprevisível quanto as nossas cabeças…

20 abril 2007

Peço perdão, mas discordo

Imagem: "Equilibrium", Pedro da Costa Pereira
Na minha habitual rusga pelos jornais on-line, ritual de muitos internautas comodistas, pouco interessados ou pouco abonados (aqui incluo-me eu!), deparei-me com mais um caso insólito, e onde? Invariavelmente na América. A minha passagem pelos periódicos digitais ou impressos equivale ao meu habitual zapping televisivo; aleatório e quase sempre inconclusivo, culminando, tantas vezes, no off do telecomando... e chamo-lhe rusga, por ser uma operação rápida, brusca e raramente proveitosa. Mas adiante.
Encontrei, no semanário Sol, referência a uma figura jurídica que não me lembrava existir – o perdão póstumo. Conceitos como “indulto” ou “amnistia” soavam-me muito mais familiares…
Dois fãs dos The Doors pediram, recentemente, ao Estado da Florida, que perdoasse o lendário Jim Morrison (falecido, em 1971, enquanto aguardava recurso em liberdade) da condenação por exposição indecente num concerto em Miami, facto ocorrido há quase 40 anos! O perdão será alegadamente decidido pelo actual governador daquele Estado. E isto porquê? Por ter simulado a masturbação, num concerto em 1969… Então, onde raio é que estava o Mick Jagger?!? Sim, já que o Michael Jackson ou o George Michael seriam catraios, na altura…
Se já encarava com estranheza a atribuição de nobels ou outro tipo de condecorações a título póstumo, o perdão então deixa-me de boca aberta! E surpreende-me, em particular, quando vigora num dos cerca de cem estados onde a pena capital ainda é uma realidade férrea… Se esta última surte efeitos práticos, já o perdão póstumo só deixará, para os crentes, a alminha mais descansada ou repousada, e mesmo para esses nada suplanta o perdão divino…
É como as indemnizações às famílias por danos morais em caso de homicídios e afins. É o tentar fazer justiça sobre aquilo que é irremediavelmente injusto. Mas, em terra de Zé Povinho, esta premissa não constitui a causa da infindável pendência dos processos judiciais, país onde se acumulam pilhas de casos à espera, não tanto do final das polémicas férias judiciais mas, sobretudo, consequência do excessivo tecnicismo processual…
A novela Casa Pia não é muito diferente; o que difere, para além da causa que lhe está subjacente e do mediatismo dos arguidos, é que, ao contrário desta, a maioria dos pendentes ainda nem chegaram à barra dos tribunais…
Seja como for, soube, na Net, de um caso, passado no final dos anos 40, em Inglaterra, onde um homem foi executado por engano, a quem concederam, depois, perdão póstumo.
Soube também que, no ano passado, terão sido indultados os 306 soldados britânicos executados, por deserção ou covardia, durante a I Guerra Mundial, uma vez que a sua morte era alegadamente vista como uma nódoa negra na reputação da Grã-Bretanha e do Exército.
Mas maior eficácia teve não o perdão destas alminhas todas, mas antes a abolição da pena de morte naquele país, em 1975, salvo erro. Isso sim é uma medida exemplar… pela positiva!
Quanto ao saudoso “lizard king”, o que a fanática dupla não pensou foi que Jim Morrison certamente não quereria (quererá) perdão por aquele gesto, tivesse este sido efectivamente provocatório, fruto de uma grande pedrada ou meramente artístico… além de que agora também já de nada lhe serviria, a não ser para apagar uma página do livro de memórias do seu curto mas intenso percurso de irreverência… torço para que o indulto não “lhe” seja concedido! Torço antes pelo perdão da dívida externa a países em vias de desenvolvimento… Como diz o ditado, «mais vale um cobarde vivo…».

27 fevereiro 2007

Porque a música também é uma forma de arte!

Imagem: "artes (antes) do palco", Luís Garção Nunes
O interven-
cionismo, a nível musical, é sabido agitar e, não raras vezes, abalar muitas consciências, e isso é bom, quando é feito pela positiva, de forma construtiva e honesta e sem mero aproveitamento próprio. Uma utopia, haverá quem diga, mas terá de ser mais do que isso?
Sou insuspeito, ao falar desta forma, já que também sou músico, actualmente “de prateleira”, embora em vésperas de uma boa sacudidela de pó (espero eu!)…
Por exemplo, criticar a corrupção política (ou de outra ordem qualquer) através das canções/performances musicais, será pura hipocrisia se, enquanto músicos, alinharmos numa onda pseudo-intervencionista de auto-promoção. Nesse caso, estaremos, também nós, a ser corruptos musicais, vendendo discos e espectáculos em troca de valores em que não acreditamos, mas que furam com tudo, protegidos que estamos pela capa da fama. E é aí que o pseudo-músico de intervenção se confunde com o pseudo-músico popular brejeiro, dito “pimba”, que não presta louvor à cultura popular, mas antes ao dinheiro/fama que consegue com essa máscara (daqui excluo os “pimbas” autênticos, que receio serem poucos…).
Poderá parecer paradoxal, mas não havendo ofensas pessoais e caluniadoras, confesso que este pseudo-intervencionismo não me parece preocupante, sempre é uma forma de pôr o dedo na ferida...
Afinal, que efeitos poderá a dita música de intervenção ter para o público?
Deverão ser incontáveis as vezes que cantei o “Bullet in the head” dos Rage Against the Machine ou o “Pride (In the name of love)” dos U2 ou ainda o “Five to one” dos Doors, entre outros dos mais emblemáticos temas internacionais de intervenção. As vezes que os cantei, fosse na casa de banho, fosse debruçado no balcão de um bar, integrando alguma das minhas ex-bandas ou assistindo a algum concerto, nunca tomei por bandeira os valores políticos ou sociais supostamente presentes nas letras. Como, aliás, poucos (ou nenhuns) dos que me rodeavam ou rodeiam o terão feito ou ainda farão.
Sou insuspeito, mais uma vez, ao dizer isto, já que também sou letrista, e também escrevo sobre os dissabores da nossa sociedade, embora não só.
Isto para dizer que não serão a música, a letra ou a canção integral, por si só, desencadeadoras de reacções em cadeia de ordem politica, social, ecologista ou de pura violência ou pura apatia. Essa vontade tem de estar assumidamente presente em quem as ouve, mais do que em quem as compõe/interpreta.
Tal como uma tela, a composição de canções tem, hoje em dia (se é que não foi sempre assim), uma preocupação estética subjacente, sendo que o ritmo, a melodia, a “cor”, enfim, a forma das palavras interessam tanto ou mais que o seu sentido ou conteúdo, que será plural/subjectivo, como em qualquer outra obra de arte. Um músico é, com efeito, um artista (mesmo sem plumas!) e, de certo modo, um actor que veste a pele do tema que canta ou da eventual filosofia adoptada pela banda ou projecto, sem, contudo, necessariamente acreditar em tudo o que diz/faz ou dizer/fazer tudo em que acredita… tal como “o poeta é um fingidor”, para Fernando Pessoa; “the great pretender”, para os Queen, e por aí fora…
Corridos 20 anos sobre a morte de Zeca Afonso, presto aqui homenagem a um ícone da honesta música de intervenção nacional, facto que, conjugado com a sua primorosa habilidade criativa e interpretativa, lhe proporcionou conseguir alguns fiéis seguidores e muitos respeitadores da sua carreira…

19 janeiro 2007

Parabéns ao B.A.P.* (irra, que maçada!)

Imagem: "Casinha encantada", João Viegas
«Sexo, sexo, sexo. É isso mesmo. Uma palavra para designar múltiplas predispo-
sições em torno de um entendimento-chave: sexo.» Assim começava a minha investida na fabulosa blogosfera. Há precisamente dois anos.
Neste período, fiz por evoluir rumo à diversidade de temas e de estilo, para que não me tornasse rotineiro e para que os meus fiéis seguidores não me banissem da lista de favoritos. Mas ainda muito caminho há por desbravar. Como disse Lobo Antunes: "Eu escrevo livros para corrigir os anteriores, e ainda tenho muito para corrigir.”
Escrever neste espaço, que denomino por “cismário” digital, não pode equivaler a escrever num diário. Ele serve antes para publicar as minhas cismas, quando há tempo, vontade e inspiração. Para quem gosta de escrever, não pode haver um compromisso periódico, tal como acontece com as padarias ou os jornais. E não imaginam o que me custa ter de “postar” somente porque se apagam, hoje, as duas velas de vida do B.A.P., e não por um acesso de vontade de partilhar algo convosco. Porém, tenho de o fazer. Mas faço-o sobretudo para assinalar uma quase imperceptível mudança de imagem, que se impõe nos tempos que correm. Digamos que um retirar do pão do forno, para não queimar…
Também ainda não consegui ultrapassar a média de uma “postagem” por mês, o que certamente defrauda as expectativas daqueles que, ainda assim, insistem em confirmar se há algo de novo. Talvez a vingança se reflicta no não comentar dos meus textos…
Resta-me agradecer a quem tão simpaticamente visita esta tão modesta casita, que, apesar das poucas assoalhadas, tenta, teimosamente, resistir à erosão dos tempos…
Convido-os a reler (se for o caso) a postagem que maior gozo me deu escrever http://kapabees.blogspot.com/2005/09/inspiradora-solido-da-sanita.html.
Felicidade suprema e... cá fico à vossa espera!
*B.A.P. = Barbárie de Anjos Pedantes: antiga designação deste blogue

20 dezembro 2006

Natal é receber sem retribuir

Imagem: "Mãos", Gustavo Gracindo
O desespero das prendas não é uma crença, nem um mito, mas antes uma superstição. Descobri-o hoje, agora. No exacto momento em que pensava sobre o pouco que ainda sobra dizer ou escrever sobre o Natal…
Não oferecer é mau presságio, bem pior do que ser presenteado com aquilo que não se precisa ou, pior, que não se gosta; é esconjuro, praga, maldição… Se assim não fosse, por que razão insistiríamos em oferecer, todos os anos, no mesmo dia, aquela prenda, comprada à (mesma) última hora, tantas vezes embrulhada com o mesmo papel de embrulho e atada com o mesmo decrépito laço, com receio de que outrem nos resolva presentear, e que a sorte o venha bafejar e se esqueça de nós? Não gosta? Pode sempre trocar, ou oferecer a um terceiro, mas devolver é que não!!! É a velha técnica do “passa a outro, senão morres!” E o que não dizer daqueles que acreditam que a intensidade da sua sorte, no ano vindouro, será proporcional ao preço que gastaram no presente natalício?
Não! Não me esqueci das crianças! As crianças são as reais e únicas merecedoras de prendas, e as genuínas desfrutadoras e respeitadoras do espírito de Natal. (Mesmo quando dilaceram e amarrotam os embrulhos, ou quando não escondem que aquele conjuntinho azul-bebé ou rosa pálido não é prenda que se lhes dê!!! Mesmo que ameacem virar a travessa das filhoses sobre a cabeça daquele familiar distante que só vêem no Natal, na Páscoa, ou nos piores pesadelos.) Porque recebem sem retribuir, melhor, sem achar que o próximo ano correrá mal só porque se esqueceram ou hesitaram em entrar no barateiro bazar das redondezas ou, na mais improvável das hipóteses, na perfumaria da esquina…
Além de sincera, a criança é respeitadora, em vez de crente, como erradamente se julga. Se, no início, olha com estranheza, rapidamente começa a desconfiar, e passa, poucos Natais depois, a respeitar, num faz-de-conta solidário, que aquele homem, de barba de algodão em rama, apertado no fato e de almofada a espreitar por entre os botões do bolorento casaco vermelho, naquela noite, passa de pai a pai natal; que aquela fatia dourada, um tanto enjoativa, depois de por si comida, provoca aquele brilhozinho no olhar da mãe, que bem merecia um fato igual ao do pai!
Enfim, com ou sem prendas, desejo, a todos os meus fiéis e infiéis seguidores, um Natal familiar, aconchegado e animado!
Quanto a mim, estou de mudança de “poiso”, mas espero, de algum modo, poder partilhar do espírito (comercial) do Natal, e ter ainda tempo para comprar as tardias lembrancitas da praxe… É que, lá dizem os nuestros hermanos, “no hay que creer en ellas, pero que las hay, las hay...”.

07 novembro 2006

Maravilhoso Portugal, maravilhoso!

Imagem: "Mais vale dormir...", Daniel Camacho
«Os portugueses vão poder escolher as sete maravilhas nacionais». Fiquei estarrecido e ao mesmo tempo com uma tremenda vontade de rir, ao ler esta frase na abertura de uma notícia do "Correio da Manhã" de hoje. Dá vontade de dizer que parece que a Europa sacudiu a cauda, fomos projectados para o espaço e vivemos noutro planeta!!
Primeiro, a RTP lembra-se de eleger os grandes portugueses, agora são as sete maravilhas nacionais!... «Quão oportuno», pensei. Qualquer dia, lembram-se de pôr em votação, via chamadas de valor acrescentado, se preferimos o permanente aumento de impostos, o desaparecimento das reformas ou o suicídio colectivo!!
Apressei-me a reflectir sobre o assunto e, como bom português que sou, rapidamente me vieram à cabeça, em catadupa, incontáveis lusitanas maravilhas! O problema é que não me conseguia decidir por sete. Talvez por ansiedade. Era este o momento tão ansiado para nós, portugueses de ginjeira, expressarmos o quão estamos satisfeitos com a conjuntura actual… e com todas as outras. Enchemo-nos de gana e lá vai: aumento do desemprego, diminuição do poder de compra, saúde insana, ensino mal educado, segurança social insegura, má gestão, corrupção, aumento da criminalidade, empobrecimento… ‘Pera lá, sete maravilhas é muito pouco, maaaau!…
Diriam, os de fora, que as nossas sete maravilhas serão o Figo, as praias quentinhas, o Vinho do Porto, a Amália, a proeminente unha do mindinho, a nossa cerveja e o farto buço das nazarenas (com todo o respeito para com as ditas).
Em boa verdade, nós somos um povo maravilhoso, com uma maravilhosa capacidade, que poucos países terão (e que tanto jeito dava, por exemplo, aos americanos e outros que tais!), de autocrítica pela negativa!!! Uma capacidade que chega a raiar o pessimismo, com tanto de entristecedor quanto de realístico!...
Já a sequência dos nossos últimos governos merecem ser isolados e analisados de per si. Aliás, eles próprios constituem, no seu conjunto, uma autêntica maravilha. A maravilha do optimismo. A capacidade de enfiarem a cabeça nas areias movediças onde o país se vai afundando! A maravilha de pensarem que sabem sempre o que é melhor para o país, não referendando (nem que fosse via SMS!) questões decisivas, que têm constituído a certidão de óbito da nossa economia.
Mas não… que estou eu a dizer? Vamos lá escolher as sete maravilhas e os não-sei-quantos grandes portugueses; vamos lá exorcizar o pessimismo que nos assombra, e que degenerou em depressão profunda, algures entre a mudança da moeda e a Guerra do Iraque; para não perdermos o comboio ou, porque não, o TGV, enfim, para não chumbarmos na disciplina de “dinheiros comunitários”, tapados que estamos por faltas!
A primeira maravilha poderá ser… a de escondermos, apressadamente, a caca por debaixo do tapete, para receber condignamente os grandes acontecimentos… a segunda maravilha, talvez, a habilidade circense de, em altura de cataclismos naturais ou de ataques terroristas noutras partes do mundo, o nosso Deus passar, num impulso, de padrasto para pai todo-misericordioso por nos reservar o cantinho do céu… na Terra! Afinal, fomos ou não fomos nós que descobrimos e evangelizámos, pelo menos, meio-mundo? Dai-nos descanso, por Deus, e deixem-nos escolher as nossas sete maravilhas… sossegados!

08 setembro 2006

Retrato de família

Imagem: "A minha família", Rui Ramos
Devia compre-
ender quando me dizes que não sabes o que se passa contigo, que só consegues portar-te mal. Devia aceitar o facto de te ser difícil, para não dizer, impossível, pedir desculpas. Devia entender que, por vezes, ficas nervosa ou até com ataques de pânico e de rabugice, o que tende a piorar com a fome e o sono. Devia perceber as tuas fobias e conformar-me com as tuas manias. Devia identificar-me, na plenitude, com o facto de não quereres envelhecer, melhor, de quereres ser sempre criança, nem quereres que ninguém fique velho. De, quando te acordo, pedires só mais um bocadinho de cama. Devia não contrariar a tua timidez e o teu acanhamento. Devia esperar o tempo que me pedes para acalmar. Devia perceber que és tão-somente uma menina de 4 anos, tão igual e tão diferente de tantas outras. Mas devia, sobretudo, não esquecer que és minha filha, com todas as implicações que isso possa ter.
Também a mim me assolam ânsias de menino mau; também a mim me custa pedir perdão, mesmo quando sei que fui eu que errei; e quão maior o erro, maior a dificuldade; também (sobretudo hoje) sei o que é estar nervoso e ter vontade de gritar e espernear, tal como fiz tantas vezes, com a tua idade, e ainda faço, o que também piora se tenho fome ou sono; também eu tenho as minhas fobias, porém bem piores do que a de “borboletas castanhas”, como apelidas as traças ou outro qualquer minúsculo bicho que buscas (e achas!) em cada canto da vivenda da avó; também a mim me custa levantar de manhã da cama e não ser para ir ao Jardim Zoológico ou para ir levantar o 1º prémio do Euromilhões ou do Totoloto; tal como tu, também detesto a ideia de ganhar barriga ou rugas, de me crescerem cabelos brancos e ficar inválido; também abomino a exposição pública e também eu gostava que me voltassem a dar, hoje, esse tempo vital para soluçar, baba e ranho, de nariz comprimido contra a almofada da cama, para acalmar e, de seguida, cochilar.
Também a mim me custa ser contrariado, nem sabes quanto, apesar de, também eu, por vezes, contrariar os outros! E por mais que berre, grite ou chore, não haverá soninho nem biberão capazes de me vir amainar sensações de frustração (tal como tu!). Bem, talvez o miminho da mamã (tal como tu!) me seja capaz de acalmar até à minha próxima birra!...

22 julho 2006

Baú de pequenas coisas - II

Parece que foi ontem, chavão fácil para início de mais um momento saudosista. Não, parece que nunca foi ou parece até que sempre foi. Melhor: parece que foi sem tempo. Intemporal. Um temporal que passou pela minha vida. Vendaval de emoções. Tempestade de criação. Uma vontade de mudar o mundo. Melhor, salvá-lo sei-lá-do-quê, enfim, de tudo de que carece ser salvo. Ou salvar-me a mim próprio?
Magia, agonia, insatisfação, altruísmo, egocentrismo, revolta e «passadas desritmadas, com pressa de chegar».
Mudam os tempos, mudam as vontades, mudamos nós, mas os sonhos, esses, tendem a perdurar. Por muito que mudemos de casa, de vida, de emprego ou até de rosto; de maneira de estar. Porque a de ser não se muda. Ou se é ou não se é; não se é assim ou assado, melhor ou pior. É-se e pronto. Ponto.
Na vida mudamos de estado. Deixamos de estar aqui ou ali, deixamos de estar assim ou assado. Com este ou aquele. Com esta ou aquela. Mas continuamos a ser… nós… sonhadores… e o sonho muda de face, mas não muda, de facto. Permanece o mesmo, iludido e desvanecido pelo tempo.
Há cerca de 13 anos estreava a minha primeira banda e estreava eu, como cantor, nesse exacto bar (esse que agora vê vedada a possibilidade de nos dar música ao vivo), de uma forma um tanto atabalhoada, mas deveras marcante, pelo frenesim, pelo calor humano, pela partilha, pela dádiva, pelo ímpeto de vencer, pelo medo de começar e o desespero de falhar.
Enfim, vinha dos meus 18 anos. Anos de ouro. De descobrir e de encobrir. De encontrar e voltar a esconder, de avanços audazes e de recuos intempestivos.
Parece que foi ontem… chavão fácil para encerrar mais um momento saudosista. Não, parece que nunca foi…